a etnologia encantada de Daniel Fabre

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a etnologia encantada de Daniel Fabre

“Passando para a masculinidade. Nas sociedades mediterrâneas”, de Daniel Fabre, prefácio de Pierre Nora, Gallimard, “Biblioteca de ciências humanas”, 346 p., € 24,50, digital € 18.

Se a antropologia está geralmente associada a povos distantes tanto no espaço como no tempo, muitas vezes não se sabe que uma parte considerável da disciplina é dedicada ao “próximo”, ou seja, ao estudo dos costumes e costumes do país ou região do observador. A esta tradição ilustrada pela obra de Arnold Van Gennep, autor de Manual de folclore francês contemporâneo (1937-1958), está ligada ao trabalho prolífico mas disperso nas resenhas de Daniel Fabre (1947-2016).

Este nome permanece associado a inúmeras áreas: a exploração das sociedades camponesas no Pays d’Oc, o carnaval, as grutas de Lascaux e, sobretudo, o que o historiador e editor Pierre Nora, no prefácio a esta colecção póstuma, Chegando à masculinidadequalificado para “revolução do patrimônio”do qual Daniel Fabre foi um ator comprometido na década de 1980. “Qualquer vestígio do passado passou a ficar sob um olhar etnológico”sublinha o prefaciador, e que se adequava particularmente a esta personalidade dotada de uma curiosidade tão diversa que o tornava “Enganoso”. Que ele tenha permanecido desconhecido, exceto para os especialistas, é tanto mais injusto quanto o leitor descobre com prazer que, neste etnólogo, o estudo está associado a um talento inegável como escritor.

O pássaro, grande iniciador

O grande mérito do livro é identificar em alguns artigos importantes o centro desse pensamento, ocupado pela questão da transição da juventude para a vida adulta. Longe de se reduzir a um processo puramente biológico, realiza-se através de complexos ritos de passagem. Decifrá-los desperta todo o interesse e a riqueza do livro, e ao fechá-lo pergunta-se se é o seu apagamento que borra as fronteiras outrora bem definidas entre infância, adolescência e maturidade.

Um ser desempenha um papel essencial na iniciação e ocupa várias provas: o pássaro. Daniel Fabre rastreia meticulosamente nos contos, nos testemunhos, nos usos – sobretudo culinários – de várias províncias, mas também na literatura (de Stendhal a Sartre, passando por Goethe ou o romântico alemão Jean-Paul Richter), as razões pelas quais as criaturas aladas se encontram investidos do poder de tirar o homenzinho de sua menoridade. A partir da experiência dos “denicheurs” (os ladrões de ninhos), desafio típico das infâncias da aldeia, “o caminho dos pássaros” se destaca como “um costume importante em nossa sociedade e até bem recentemente. Ela produz (…) um domínio particular do mundo natural e inaugura, no mesmo movimento, uma transformação da pessoa no momento em que convém “fazer os meninos”, produzir os modos de ser de seu sexo”.

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